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10.11.16

sugar-high

      

       Escrever às sobre o amor vezes cansa. Se amar já dá trabalho, imagina ficar escrevendo sobre isso? Não que ele se esvaia das minhas veias, acho que isso seria impossível. Eu sou um ser apaixonado, o romântico incurável e muitas vezes um verdadeiro pé no saco por conta disso. Mas dessa vez o texto não é sobre o amor.
       
       Todas as terças-feiras eu vou à dermatologista tentando salvar os fios de cabelo que ainda me restam. Pode me julgar, não tem problema, desde que eu não precise virar um judeu pra ficar usando aquele chapéuzinho pra disfarçar uma das coisas que a genética me presenteou. E olha que não foram poucas! Poderia elencar aqui uma porrada de coisas passando até por heterocromia e daltonismo. É mole? Mas não dá pra processar os pais por conta disso, né? Coitados. Bom, na semana seguinte já havia uma bandeja cheia daquelas balas mastigáveis de iogurte que eu não vou fazer propaganda do nome aqui. Os propagandistas da indústria farmacêutica ficaram me olhando meio de canto de olho pensando se aquilo era um consultório de dermatologia ou psiquiatria, porque eu estava quase deitado naquelas poltronas meio futuristas que parece uma concha, coberto de papeis de bala e boca cheia, mastigando mais que uma vaca ruminando o almoço às 3 da tarde. Depois de comer aproximadamente umas 27, eu pedi encarecidamente para a recepcionista esconder a bandeja em qualquer gaveta que fosse inacessível pra mim. Funcionou. 

       Claro que essa terça-feira eu fui de novo, como todas as outras terças-feiras anteriores, mas dessa vez eu fui no caminho pedindo para Deus intervir em favor da minha saúde, rezando para eu chegar lá e as balas já terem sido comidas por outra pessoa ansiosa e desesperada como eu. Deus escuta, eu tenho certeza, mas a Lady Murphy também, aquela safada filha da puta, e ela chegou antes que Ele lá, porque a primeira coisa que eu vi foi a bandeja, linda, imitando prata, cheia daquelas balas de uma cor que eu, obviamente, não sei identificar, bem no meio da mesinha de frente para as poltronas concha que eu sempre sento bem bonito e quando a dermatologista me chama eu já estou semi deitado, quase me aninhando pra dormir. Ah, mas dessa vez eu nem me fiz de rogado não, como parecia estar se aproximando o fim das balas, o consultório cheio (de novo), eu sentei e já fui colocando a bandeja no colo. Imagina se alguém decide dividir aquelas 32 balas que sobraram? Eu sou taurino e não sei se é influência do signo, mas me dê 3 tapas na cara MAS NÃO ME ENCOSTA NA MINHA COMIDA! Ainda mais se for essas balas mastigáveis de infância, viciantes. Enfim, fui eu lá atacando a bandeja, só fazendo o barulho do plástico abrindo e eu enfiando 3 de cada vez na boca, até que o inevitável aconteceu: uma grudou.

       Eu acho que deveria haver um estudo para analisar a influência da obturação feita com bala mastigável na odontologia moderna, porque aquilo gruda de um jeito que você pensa: ok, fodeu, meu dente vai ficar embalado pro resto da vida. Aí o que você faz? O óbvio: come outra na esperança de que a nova vai descolar a anterior. Olha, ouso dizer que às vezes funciona, mas quando não dá certo, meu Deus do céu! Você vai encapando os dentes como se fosse uma dentadura de plástico e aquilo vai te incomodando até que você se dá conta e já está com 3 dedos dentro da boca tentando desesperadamente tirar aquilo de alguma forma, quase pedindo uma tampa de BIC emprestada. Aí eu lembrei que eu ainda estava na recepção de uma clínica de dermatologia, na frente de várias pessoas que me olhavam incrédulas. Dei aquele sorriso amarelo (no caso meio rosa por causa da camada de bala que eu tinha em praticamente todos os dentes), e fui todo cabisbaixo com a bandeja entregar pra secretária, igual na semana anterior, falando: por favor, me salve de mim mesmo e esconda isso. Ela muito educada escondeu. Eu sentei. A médica atrasou. O que eu fiz? Levantei e falei: Tá, chega, me dá esse negócio aqui, eu prometo que trago um pacote semana que vem. E devorei aquelas últimas balas como se fossem a vacina pro câncer. Se antes eu estava sentado na poltrona com a bandeja no colo, agora eu já estava praticamente de conchinha com a bandeja falando eu te amo de maneira sincera.

       No final das contas a dermatologista me chamou, ainda faltavam três balas, era inadmissível. Pedi pra ela esperar um pouco enquanto ela tentava entender o que eu estava fazendo praticamente abraçado com a bandeja de balas, enfiando as 3 na boca correndo antes de colocar tudo no lugar e jogar meio quilo de papel de bala no lixo. E funcionou! Aquelas três últimas descolaram todas as anteriores e eu pude sentir meus dentes novamente. Também pude escutar alguém falando: gente, imagina o nível glicêmico desse garoto? Deve estar nas alturas! A dermatologista fechou a porta e eu só falei: semana que vem vão voltar aquelas balas de canela do tipo que a gente compra quando não quer dividir né? Ela riu.

c.e.

PS: blog tá mudando de endereço!! vem ver: goo.gl/J2QmG0


11.10.16

bom dia.


Procure por alguém que, com milhares de opções, escolha você.
—  Pedro Pinheiro.        

       Eu fiquei deitado olhando você dormir. Como sempre eu acordei mais cedo que você, morrendo de preguiça de levantar e fitando a luz que entrava tímida pela janela. O quarto estava iluminado o suficiente para eu conseguir ver todos os detalhes do teu rosto. Quanta coisa já não havia passado por ali? Era como se cada marca tua, cada curva e expressão contasse uma história de quem havia passado por inúmeros bons e maus momentos até ali. Mas afinal, acho que isso é aplicável a nós dois, não? Todos temos uma história. Um passado. Um futuro. Talvez você esteja no meu, quem sabe? Aprendi a deixar as expectativas de lado para poder viver. Ou sobreviver?

       Eu já havia saído de uma situação que, honestamente, eu nem via saída, mas consegui. Depois dela, algumas vieram na sequência, talvez tão pesadas como aquela, de maneiras bem distintas mas com a mesma intensidade. Parei para perceber que talvez, só talvez, tudo estivesse mais dentro de mim do que fora. Situações repetidas deveriam estar tentando me dizer algo como: se você não aprender, vai continuar acontecendo. BINGO! Essa era a chave para codificar parte do que aconteceu durante um determinado período da minha vida. Era hora de mudar algumas coisas de dentro pra fora e com isso fui deixando as expectativas do lado de fora do meu ser. Larguei mão da idealização, do sonho perfeito e passei a viver tudo o que a vida me colocava na frente e foi assim que você cruzou meu caminho. Tão tímido quanto eu.


        De repente trinta. Meu deus esse número até me assustava e eu ficava entoando um mantra dentro de mim de que os 30 eram os novos 20. E fui vivendo. Fui curtindo momentos únicos de quem não sabe, com toda a certeza do mundo, se iria acordar no dia seguinte. E assim comecei a te curtir. Vagarosamente. E aconteceu o idealizado. Bem, não como um conto de fadas, obviamente, mas foi algo linear, crescente, do jeito que eu queria. Além do querer, era o que eu precisava. E por saber disso, já havia cortado muita coisa da minha vida. E você foi ficando. Leve como uma fita de seda sendo levada por um vento bem forte. E assim a gente foi caminhando até que chegamos aqui. Eu deitado, do teu lado, podendo observar os cantos escuros do teu corpo e conhecendo um pouco do lado sombrio da tua alma e me apaixonando pela luz que irradia do teu sorriso. Sem expectativas. Um amanhecer por dia. E assim eu vou, cada vez que acordo, escolhendo estar ao teu lado. E você escolhendo estar ao meu.

c.e.

29.9.16

companheirismo.



       A gente fica buscando o amor. Desde pequenos aprendemos que amor era quando o príncipe acordava a plebeia com um beijo. O cavalo branco chegando. Mas no fundo tudo isso é uma grande ilusão. Uma fantasia que a gente guarda como se fosse uma verdade absoluta e pauta a vida nessa busca. Muitos de nós acaba se contentando com o meia-boca, seja no amor, no trabalho ou na vida, porque sempre, no subconsciente, no consciente, em todas as células do corpo a gente continua esperando o cavalo branco chegar. Mas ele não vai vir. O amor vai muito além disso.

     A gente começa com a paixão. O frio na barriga quando você conhece alguém. Talvez você já tenha conversado com elx durante um tempo antes de se conhecerem, afinal de contas estamos na era moderna, da internet de fácil acesso. Muito mais fácil conhecer alguém online do que simplesmente tropeçar nx futurx namoradx na rua. Mas paixão não tem base, tem química, hormônios, neurotransmissores agitados. Tantos nomes para dizer fatos óbvios. Paixão acaba.

       O amor é algo que você vai construindo. Não, não existe amor à primeira vista, isso é paixão. Amor é o tijolo que você vai empilhando até virar uma parede. Se ela vai se manter em pé ou não, vai depender de toda a fundação que você construiu e isso que vai delimitar se essa parede vai continuar ali durante um terremoto. E quando eu digo terremoto, são as pequenas coisas da vida cotidiana. Quantas vezes você não se apaixonou por alguém, talvez até perdidamente, e com o passar do tempo (e nem precisa ser muito tempo não), você foi percebendo que os gostos não batiam? Não havia uma harmonia silenciosa entre vocês e tudo foi se acabando. Seja em uma briga violenta, um afastamento súbito, um adeus nas entrelinhas. O amor demanda tempo e dedicação.

       Para se amar alguém, você precisa, em primeiro lugar se amar. Soa clichê, né? Mas veja bem, se você, acima de qualquer outra pessoa, não se amar, não se aceitar profundamente, como você pode querer que o outro o faça? Esse é o maior ponto de partida. Seja autossuficiente, porque se um dia elx for embora, você continuará sendo a mesma pessoa que sempre foi, talvez com um ou outro aprendizado deixado como lembrança, mas manterá sua identidade e continuará sabendo que tu és. 

       Para amar você precisa admirar o outro em diversas formas. Aprender junto. Crescer junto, não importa a tua idade. Você não consegue amar alguém que você considere inferior a você e isso se aplica do outro lado também. Opostos se atraem? Talvez. Mas não cola. Os dispostos se completam. Não no sentido de preencher algum buraco que você tem aí dentro. Isso não existe. Se você for esperar que outra pessoa preencha teus buracos solitários da alma, isso só vai durar até, um dia, você se tornar a pessoa bem resolvida, lisa como um asfalto recém posto e daí acabou. Todo o fundamento que você tinha montado havia sido em cima de algo que já não existe mais. Você se tornou infinito. E elx apenas uma band-aid que cai sozinho durante o banho.

     No final das contas a gente não busca a outra metade, nem a bengala existencial. A gente busca x companheirx. A pessoa que vai te fazer cia nos teus programas prediletos e você nos delx. Companheirismo é tudo nessa vida! Seja em uma amizade ou em um amor. Nunca esqueça de primeiro criar as tuas próprias bases, pra depois ir empilhando os teus tijolos. Se eles caírem, a base ainda estará lá e você continuará de pé. Nenhum pedaço teu foi embora. Quem foi, foi elx. Você vai continuar caminhando, encontrando outros tijolos por aí para empilhar, até que um dia, quando você menos perceber, a parede está lá. Imensa. Enorme. Os terremotos já passaram e nada aconteceu. Você é completx. Elx é completx. E vocês juntos são imensos, infinitos. Não procure tanto o cavalo branco, nem a metade do teu copo. Seja o teu copo inteiro e procure alguém que o faça transbordar. E seja feliz, sozinhx ou não, todos os dias da tua vida.

c.e.

23.9.16

pelo amor ou pela dor.


você sempre vai ter a opção de aprender com o amor. veja bem, ele está aí, sempre por perto. os pais, os amigos, alguns amores aleatórios de quartas-feiras. um amor de cama. ele está sempre passando pela tua vida de alguma forma, mas mesmo assim a gente insiste em só aprender pela dor. o sofrimento ensina também, doloroso mas ensina. ah, mas o amor, tão melhor aprender pelo amor. uma pena que a gente nunca consegue. 

22.9.16

enciclopédia.


a gente vai ficando assim. o botão fica em cima do enviar. eu vou apagando e escrevendo sei lá quantas vezes e procuro algum lugar seguro onde eu não preciso saber se você leu ou não. continuo fazendo textos tentando aliviar esse peso. essa falta. essa saudade. se eu pudesse transformar a paixão em tinta, eu te daria uma enciclopédia.

16.9.16

calçada.


eu já escrevi tantas vezes sobre isso. é como ler sempre o mesmo livro. e devagarzinho você vai sumindo. vai ficando indiferente e não existe nada pior do que isso. dizem que o contrário do amor não é o ódio, o ódio é o amor frustrado. o contrário do amor é a indiferença e não existe nada que machuque mais do que isso. de qualquer maneira, eu também me machuco. não pela tua indiferença, mas pela minha. pela forma como você vai desaparecendo. o que eram conversas animadas viram pequenos monólogos, frases soltas, comentários fora de contexto. aquela conversa na mesa não existe mais faz algum tempo. aliás eu acho que esqueci quando foi a última vez que te vi. devagarinho, assim, bem de leve, quase sutilmente, você foi indo. eu também. às vezes a gente se encontra, se fala, se esbarra por aí. você sorri. eu disfarço. a gente continua caminhando.

21.6.16

Dia 2




O segundo dia foi um impulso. Foi a veia saltada na têmpora. Um descontrole. Afinal de contas, havíamos nos visto um dia antes, pela primeira vez. A jaqueta amarela, o lanche de pernil, o bombom, o seu sorriso. Lembro que voltei para casa tarde, em um estado de embriaguez clichê e ouvindo Wolf & I descontroladamente no repeat. Aquela música virou um símbolo pra mim e eu nunca mais a escutei.

Não teve absolutamente nada de mais. Nenhuma história engraçada ou romântica para contar. O mesmo posto de gasolina, o mesmo carro e beijos intermináveis. Dessa vez eu não precisei dizer não. Na verdade mal precisei dizer qualquer coisa, era uma sintonia quase sinfônica. Era perfeito e eu era infinito.


            Continuei com a mesma música. A mesma sensação de embriaguez. Novamente eu voltei tarde pra casa e você me pedia para te avisar quando chegasse. Me esperava ainda acordado mesmo sendo absurdamente tarde. Mas te ver, eu descobri naquele dia, era como recarregar a bateria do carro pela tomada. Dava uma carga extra que fazia tudo funcionar melhor. As coisas brilhavam mais. E eu brilhava mais do que todas elas.

            Voltei com o mesmo sorriso besta e as borboletas no estômago, que agora pareciam girar pelo meu corpo inteiro. Eu tremia de excitação. Você não estava trabalhando durante aquela semana e nos falávamos durante o dia, trocávamos informações sobre a vida, séries e desejos. Haviam planos nas entrelinhas e isso fazia com que eu me sentisse um círculo, que não tem fim.



            Mas depois disso eu não sei o que aconteceu. Houve uma pausa. Foi como se Deus puxasse o freio de mão e tudo voltasse como nos dias em que eu carregava um bombom amassado pra te encontrar. Você era esquivo. Furtivo. Era um prelúdio, um prefácio do que viria a seguir e isso durou alguns dias. Até que eu decidi que era hora de parar. Não no sentido literal. Precisava parar com a gente, com o que quer que tivesse acontecido nos dois primeiros dias.

            Não preciso mencionar que não deu certo né? Pelo menos não o meu plano, porque aquilo foi um wake up call de verdade pra você e as coisas pareciam que novamente iriam entrar no eixo. Mas isso é o dia 3, ou a somatória de diversos outros dias, perdidos, meio vagarosos, vagantes. E o que eu tinha agora era uma história incompleta, pedindo para ter uma continuação.




            Eu te avisei quando eu cheguei em casa, abracei um travesseiro para dormir, pela primeira vez. E abracei forte. Abracei tão forte que meus braços doíam quando acordei. No segundo dia eu percebi que faziam dois dias que eu sonhava com você. E eu apertei ainda mais o travesseiro contra o peito e tocava uma canção secreta no meu fone de ouvido.

8.4.16

a vida é uma porta.



"Se a vida te fechar uma porta, abra-a de novo. É uma porta. É assim q elas funcionam!"


     Começou assim, despretensiosamente. Era uma porta e ela estava ali, ao lado de tantas outras nesse corredor infinito que a gente costuma chamar de vida. Eu poderia ter batido antes de entrar, mas acredito que eu a tenha chutado. E chutei com tanta violência que ela quase voltou e me acertou. Mas no final das contas eu acabei entrando. Eu sabia que ela estava fechada há algum tempo, porque, honestamente, eu que havia fechado por falta de maturidade.

        Os anos passam, a gente cresce e aprende. Eu cresci e você também. Ambos aprendemos com a vida sobre a forma de lidar com as pessoas e também com nós mesmos. Aprendemos a nos conhecer. Você ainda guarda na lembrança aquele garoto que parecia metido, esnobe, às vezes até grosseiro. E eu via um garoto alto, com traços bonitos, mas estava envolvido com outras pessoas. Talvez as pessoas erradas, nunca vamos saber. E envolvido demais para poder te notar. Uma pena né? Porque os anos passam e as oportunidades também. Mas é a história da porta, às vezes ela fecha, às vezes ela abre. Hoje todas elas estão entreabertas.

         Aprendi na vida que amar alguém pode muito bem ser como viver com uma andorinha. Ela é livre com suas asas, e pode voar longe, mas sempre sabe onde é a casa, e sempre volta. Talvez nem volte. Ou talvez nunca tenha vindo para ter alguma coisa para retornar. Mas ah, é assim que a vida funciona, não? Existem amores sublimes, daqueles que a gente carrega pra vida inteira sem nem se dar conta. São aquelas pessoas que fazem você abrir um sorriso até encabulado quando recebe um bom dia. Eu provavelmente estaria olhando para baixo se estivesse te dizendo tudo isso cara-a-cara.

       Mas você não consegue acreditar nas coisas que eu te digo. A Terra é redonda e não é à toa.  Tudo dá voltas, muda, se recicla, e a gente aprende. Talvez você não tenha encontrado alguém que te faça acreditar em tudo isso, mesmo eu sabendo que estás muito bem acompanhado. E torço para que continue assim, sempre, feliz, com esse sorriso meio de lado. Um dia, quem sabe, ele aprenda a te ver como eu consigo te ver, ou eu quebre a cara e veja que, no fundo, você nem é tudo isso. Mas me faz bem acreditar que sim. É aquela paz que a gente sente quando senta no topo de uma montanha e fica olhando o mundo de cima. É sublime, sempre foi.

          Eu já torci muito para que os nossos caminhos se cruzassem como se fossem dois trens no mesmo trilho. Como se a terceira Lei de Newton pudesse ser aplicada através dos meus pensamentos e, com isso, fazer com que você trombasse diretamente de encontro a mim. Mas isso já ficou para trás. A realidade sempre bate à porta e eu sei que nossos trilhos por mais próximos que um dia possam ser, estão destinados a serem paralelos. Se no final, os paralelos se encontram, acredito que isso seria em outra vida ou no final do universo. Do nosso universo paralelo.

            Eu conheço os teus medos. Você sempre me diz que é muito fácil me ler, como se eu fosse um copo com água potável, translúcida, parado em uma mesa e você pudesse ver através dele. E tenho certeza que vê, nunca tive pudores com relação a você. De todas as pessoas, você é a que mais me viu nu. Não fisicamente. É uma coisa de alma e entrega. Eu sou a única coisa que posso te oferecer, então que seja inteiro, real, honesto e verdadeiro. Tantas palavras pra designar o mesmo. 

            E sabe de uma coisa? Eu também magoo as pessoas, talvez tanto quanto você. Isso é uma das coisas que secretamente você sabe a meu respeito. Não é por mal, não é mesmo? Simplesmente acontece. Talvez seja esse nosso jeito de querer ser atencioso, agradar ao mesmo tempo sendo sincero sem pudores quando a verdade precisa ser jogada na cara, como se fosse uma pedra, ou porque não, uma porta. E essa decepção que você insiste que um dia eu terei, eu lamento. Lamento porque não tem como eu esfregar na tua cara quem você é. Só posso torcer para que algum dia, alguém, consiga te mostrar a pessoa que você é e que nem você mesmo consegue ver. Mas se um dia estiver de frente a mim, por favor, olhe bem nos meus olhos e veja teu reflexo. Veja como você se reflete em mim. Seja no meu olho, no meu corpo e na minha alma. Verás que és único no mundo, como aquela rosa, do velho conto que eu tanto amo. Existem mil de ti, mas és único para mim. 

           Que um dia eu possa entregar essa carta pra ti, ou dizer cada uma dessas palavras segurando a tua mão e acariciando os teus cabelos. Mas por hora, nessa vida, acho que isso tudo já é o suficiente. Que você tenha toda a felicidade do mundo e se precisar a gente pega a felicidade de outros mundos, só pra ti. Obrigado por caminhar ao meu lado nessa vida de aprendizagem. Você sabe o quão importante é e sempre será para mim, nas minhas decisões e conquistas. Nunca se esqueça disso. Eu sou e sempre serei aquele amigo que você pode contar. Seja para uma risada ou uma lágrima. Seja para escutar ou falar algumas verdades. Seja para sempre poder te fazer feliz. Obrigado!

14.3.16

esse é o meu adeus.



Eu fiquei passando na sua frente, virtualmente. Lancei tantas indiretas que até eu me senti atingido por alguma delas. E você não me percebeu.

Foi a época errada pra gente, né? Você tinha acabado de sair de um relacionamento e eu também, mas tínhamos objetivos completamente ao contrário. Você tinha sede de vida e eu de amor. Você precisava sair por aí, encontrando novas pessoas para se perder e eu tentando ser achado. Até que fui, por você. Eu não bati na sua porta pedindo para você me conhecer. E nos conhecemos.

Mas sabe como é a vida né? Essa maravilhosa. Ela coloca a gente em um trilho tão bonito e depois na bifurcação a gente vê que foi pro outro lado. E fica ali, procurando, tentando pular fora daquele caminho e você foi indo cada vez mais longe. Quanto mais o tempo passava, mais eu percebia que você estava bem. Era exatamente o que você queria. Essas novas pessoas, experiências e brincadeiras.

Quando eu percebi que talvez os caminhos fossem se cruzar lá na frente, mas que isso poderia demorar só Deus sabe quanto tempo, eu fechei a porta. Só não percebi que havia fechado na minha própria cara e não na sua. Te excluí de todas as redes sociais. Sabe como é, relacionamentos modernos. Mas continuava secretamente entrando. Ok, nem tão secretamente. Todas às vezes em que eu via algo que te expunha de maneira vulgar, eu curtia para você ver que eu estava ali silenciosamente sofrendo com as tuas atitudes. Atitudes que só cabiam a você, mas que eram como uma flecha que você atira pra cima sem saber onde vai cair mas que sempre caíam em mim. Eu estava sempre na posição ideal para ser atingido em cheio.

Mas você não consegue mais me ver. Eu estou aqui, parado, olhando você ali no canto com outras pessoas passando pela tua vida. Será que alguém vai conseguir o que eu não consegui? Talvez você ainda não seja uma pessoa completa, autossuficiente o bastante para aceitar outra pessoa te transbordando. Ainda deve estar no estágio que precisa de alguém que te complete. Mas cuidado, porque quando você for suficiente para você mesmo, tudo isso vai perder o sentido. E você vai perceber que as melhores pessoas da nossa vida não nos completam, nos transbordam.

Eu tentei te mostrar o teu melhor, para que você enxergasse a tua própria vida da maneira como eu via, aqui de fora. Mas você não conseguiu. Muito menos eu. Agora eu fico aqui, em pé, olhando você de longe e você nunca vai conseguir me ver. Mas só vim para dizer adeus e um obrigado. Essa nuvem preta pairando sobre mim parece que está indo embora. Eu sei que ele está aí com você, agora. Em meio a todas essas pessoas enquanto eu continuo aqui apoiado nesse canto. Porque será que você não me vê? Eu te dei tudo o que eu podia e mesmo assim eu não sou o cara que você vai estar ao lado quando acabar a festa. Eu vou continuar aqui, no canto, dançando e encarando um fundo de copo qualquer. A música vai acabar, as luzes vão se apagar e a gente vai embora. Separados enquanto eu te vejo dar as mãos e sorrir para ele. Eu não sou o cara que você vai levar pra casa e vou continuar dançando na vida. Completo e à espera.

Tão perto e tão distante. Esse é o meu adeus. Boa noite. Durmam bem.

20.10.15

não se vá.





Eu prometo que um dia eu estarei ao seu lado. Talvez seja o seu guia naquela tempestade de copo d'água que você costuma ter depois de um dia chato de trabalho. Ser aquele que rouba o seu edredom de madrugada.

Eu posso prometer ser aquela luz no fim do túnel que você jurava ser um trem, ou a mordida mais gostosa do meu lanche. O carregador quando a minha bateria também estiver acabando. Ou a plaquinha vexaminosa no aeroporto quando você voltar de um lugar qualquer, cansado, só pra te ver sorrir, com algum presente na mão.


Eu não posso te prometer as estrelas, elas estão fora do meu alcance, mas posso fazer do seu teto um céu estrelado e deitar, mesmo longe, sob o mesmo céu de estrelas. Também não posso prometer que nunca estarás sozinho, até eu fico sozinho uma hora ou outra. Mas mesmo longe, eu prometo estar sempre perto, sempre ao seu alcance, mesmo que seja por FaceTime ou um telefone simples, meio chiado.


Prometo ser um sorriso de bom dia, mesmo mau humorado. Um abraço apertado, mesmo quando eu não quiser. Você sabe como é, às vezes eu não quero ficar perto de ninguém, me fecho em uma bolha, mas você tem passe livre. Pode entrar e sair do meu mundo particular, isso eu prometo.

Prometo ser aquele que vai brigar com você quando você estiver fazendo a coisa errada, mas que vai te apoiar em todas as tuas decisões, mesmo que eu não esteja de acordo. Prometo ser a pegada na areia que caminha bem ao lado da tua. Ou a corrida de final de semana no parque perto da sua casa. A companhia que você reclamava que não tinha para aqueles programas mais chatos.


Prometo ser o crítico de museu, o histérico na montanha-russa, a lambida do sorvete, o teu motorista quando você não quiser dirigir, ou co-piloto quando você preferir ir com o seu carro. Prometo te guiar na vida melhor do que o Waze nos guia a cada ida a um restaurante, a um cinema, a um teatro. Será que você está disposto a me guiar também?

Eu sei que existem mil coisas ainda por vir e não posso prometer que tudo vai ser sempre um sonho. Não tenho vocação para esse amor de conto de fadas, mas te prometo ser um príncipe na maioria do tempo. E prometo te amar mais do que amo chá gelado no verão.


Prometo ser o teu livro de cabeceira, a conchinha do inverno, o sexo nos lugares inusitados, o bilhete na geladeira. Mas só se você me prometer que nunca irá embora. Que nunca irá virar as costas ou encontrar outras bocas por aí. E então eu te prometo dar sempre o meu melhor e expandir os meus limites, junto com os teus. Eu não posso prometer muita coisa, mas tudo o que eu puder, eu prometo.

19.10.15

frio.



       Sabe quando você resolve tomar aquela chuva torrencial, imaginando que isso vai te lavar a alma? Eu só senti frio. E mais do que nunca senti falta daquele abraço quente. De urso. Que várias vezes me esquentou naqueles dias em que eu tremia de frio e reclamava da vida. Esse frio é injusto! Eu dizia. Eu não tenho muito tecido adiposo pra me aquecer. É bullying divino. Você dizia que eu parecia o patolino de tanto reclamar. E ria. Chegava a jogar a cabeça pra trás de tanto rir enquanto eu estava ali indignado com o mundo. 

       E mesmo sem saber o que falar ou sabendo que falar só ia me incentivar a reclamar mais ainda, você me abraçava. De frente. Forte. Chegava a me esmagar como se quisesse dizer: para de reclamar por um segundo? Eu estou aqui. Nada pode ser tão ruim assim. E não era. 

       Eu ficava mudo. Era como se tudo parasse por alguns instantes. Me sentia protegido e amado. Me sentia seguro. Era como se o mundo estivesse me envolvendo e me amando. Você era o meu mundo. E era tanto o meu mundo que eu até esquecia o meu. Enquanto sentia o seu coração batendo no peito. Tão perto de mim que o meu parecia que acompanhava. Enquanto eu olhava o seu pescoço e via a sua veia saltando no mesmo ritmo. E meu coração dançava com o teu. Seguia o ritmo. Acalmava. Até você me largar, me dar um beijo e dizer: vamos que a vida não para pra ninguém não. E segurava a minha mão dizendo: pelo menos estamos juntos, não é mesmo? 


       Mas hoje choveu. Começou com uma chuva fina que eu fiquei um bom tempo olhando pela janela. Alguma coisa estava embaçada: a janela ou meus olhos. E quando a chuva apertou é que eu percebi que era ali que eu deveria estar. Pra que aquela água pudesse lavar a minha alma. 

       Sabe quando você resolver tomar aquela chuva torrencial, imaginando que isso vai te lavar a alma?

       Pois é. Eu só senti frio.

22.9.15

Apto 21




        Toquei a campainha de um jeito meio nervoso e tímido ao mesmo tempo. Eram quase 3 da manhã. 
Eu sabia que ele estaria dormindo. Mesmo sabendo que ele tem o costume de dormir tarde, mas acho que estava exagerando. 

Dei dois passos pra trás. "Porque eu não liguei?", foi a primeira coisa que eu pensei. 
Deveria ir embora. Ele vai me odiar mais ainda. Vai bater à porta na minha cara. 
Não sei porque eu tinha que fazer isso. Mas não segurei. Estava passando tão perto do apartamento dele. 
A luz da sacada estava apagada. 

        Acho melhor ir embora. Esquecer essa ideia ridícula de quem tomou tequila demais. Rum demais. Desilusão demais. 
Fui pra me afastar, virei decidido a ir embora e fingir que nunca saí da mesa daquele bar. 
Mas a porta abriu. Alguém destravou. 
E se não for ele? O que eu faço? Resolvi subir. 
Encarar um lance de escada como se fosse o meu caminho da guilhotina. 
Mas estudei o peito. Eu sabia o que estava fazendo. Bom, eu achava que sim né. 
A porta do apartamento já estava entreaberta. Então foi ele mesmo quem abriu. Nem perguntou quem era, vai ver já imaginava. 
        Fazia quase 2 meses. 
Fiquei parado alguns instantes à porta. Tentando escutar algum som. Algum movimento. Alguma indicação de que seria seguro entrar. 
De novo eu tentei estufar o peito, criar coragem, afinal de contas eu já estava ali, não?
Mas nenhum barulho. Nada. 
        Meu corpo tremia como se estivesse com uma febre irracional.
Respirei fundo, coloquei a mão na maçaneta e fechei a porta.
Era loucura! O que eu estava fazendo ali?
Virei as costas antes que ele pudesse ter alguma reação e disparei escada abaixo. 
Fui direto para destravar a porta e sair novamente para a rua quando escutei um “hey”.
“Onde você vai?” - ele perguntou.



        O meu susto deve ter entregue tudo. me virei quase sem tocar os pés no chão. Eu não queria que ele tivesse me visto. Preferia que ficasse na dúvida pro resto da vida.
Mas não tive coragem de olhar pra cima. Meus olhos encheram de lágrimas e eu sabia que não conseguiria segurar se olhasse pra ele. Aquilo não era eu. Aquilo era a pessoa que ele tinha feito eu me tornar e isso não me agradava.
        Olhando para os pés dele, para os mesmos tênis que sempre acompanharam meus passos, eu disse: vou embora. Eu vim deixar o meu amor pra você. ele é seu. Mas eu sou meu. E nunca mais poderei ser teu. A escolha foi tua, mas a decisão agora é minha. Eu vou ali fora, viver e esquecer que um dia esse tênis aí ó, encostou nas pontas dos meus. 
        Destravei a porta e senti o ar gelado daquela noite no meu rosto. As lágrimas secaram na hora e eu podia sentir o caminho que elas tinham percorrido pelo meu rosto.
Fechei a porta sem olhar para trás. Não sei qual a cara que ele fazia na hora. Não consegui olhar. 
Caminhei na calçada olhando as árvores, os carros, tudo o que se movia ou não.
E de repente tive uma vontade incontrolável de rir. E caí na gargalhada. Ri tanto que meu rosto chegou a doer. 
Era como se toda a tristeza, tudo o que sentia, tivesse ficado ali naquele hall. Naquele tênis. Naquela vida que não me pertencia mais. Era um passado e eu estava aliviado por isso. 

        Entrei no meu carro e fui embora. Pisei no acelerador como se o mundo fosse acabar amanhã. Eu me sentia completamente vivo.